Terça-Feira, 16 de Outubro de 2018
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Notícia
Independência/40 anos: Entrevista a Luís Galiano, Cônsul de Angola em Faro
Novembro 11, 2015
A chama da Juventude angolana continua acesa mas, para Luís Galiano, à frente do Consulado Geral de Angola de Faro há quase um ano, é importante que esta não esqueça o respeito pela herança e pela experiência daqueles que lutaram, também jovens, por uma Angola livre. Quarenta anos depois da Independência, 13 depois do fim da guerra civil e num mundo cada vez mais global, o Cônsul de Angola no Algarve aponta os desafios urgentes que se colocam hoje ao povo angolano.

Quarenta anos volvidos, quais as conquistas maiores da Independência?

A primeira é a conquista da própria Independência e diria que a Paz é talvez, a par com a Independência, o bem maior que nós conseguimos alcançar e que urge consolidar.

A economia angolana esteve centrada no petróleo até muito recentemente. Com a queda do preço do crude, como é possível um crescimento sustentado do país?

Sobretudo fazendo uma diversificação da nossa economia. É um projecto que está em curso, é uma obra gigantesca. Por exemplo, pensamos que se tudo correr bem seremos auto-suficientes em termos de abastecimento eléctrico e de distribuição de água em todo o país, em 2017. E tudo isto porque temos um rumo, metas a alcançar para o desenvolvimento de Angola e que estão traçados no Programa Nacional de Desenvolvimento de 2002-2030.

Apesar dessa queda brusca, é possível continuar a aumentar as conquistas sociais, como o emprego, a segurança social, a educação e a saúde, a bancarização da economia?

A aposta do sector bancário e financeiro do país é o de potenciar as empresas para que estas, consolidadas nos mais variados ramos de produção nacional, possam criar emprego e assim ajudar no combate à pobreza, já que o principal empregador ainda é o Estado. Nos campos, o processo de desminagem é um facto! Já é possível agora praticar agricultura na maioria dos campos desminados, o que torna possível, no futuro, sustentar a indústria transformadora. Por outro lado, está-se a afinar aquilo que é a obrigatoriedade das empresas e dos cidadãos de pagar impostos, que serão uma importante fonte de receita para o Estado.

No plano das infra-estruturas, há algumas barragens que estão a ser construídas de raiz, como a Estação Hídrica que servirá a Província do Cunene, no extremo Sul de Angola, muito afectada pela seca. Temos outras a ser reconvertidas, como é o caso da barragem de Capanda e a de Cambambe, que vão triplicar a sua produção energética. A barragem de Laúca será, provavelmente, uma das maiores da região austral de África. Muitos dos investimentos em curso tiveram uma redução no engajamento para a sua conclusão, mas continuam a ser feitos, não pararam! Por outro lado, Angola tem credibilidade internacional e pode, caso isso seja necessário, recorrer a fundos internacionais, quer por acordos bilaterais com outros países ou por acordos com as organizações financeiras internacionais, para apoiar o desenvolvimento da economia.

Temos ainda o Aeroporto Internacional de Luanda, em construção, novas estradas a serem feitas em Luanda para descongestionar aquele tráfego imenso e a previsão é que todas estas obras, estruturantes, estejam prontas entre 2017 e 2018. Os hospitais continuam a ser reequipados com tecnologia de ponta. Os grandes projectos habitacionais continuam a ser concluídos. Estão agora a ser inaugurados novos empreendimentos habitacionais nas diferentes Províncias. São para a juventude, para os funcionários públicos e para outras camadas da população através do sistema de Renda Resolúvel, ou seja, as pessoas vão pagando as casas através de uma renda mensal e mais tarde tornam-se proprietárias dessas residências.

Angola tem assumido um papel de alguma preponderância ao nível da geopolítica em África, ajudando a mediar e a dirimir alguns conflitos. O vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, questionou o Conselho de Segurança bem como outros líderes africanos, pressionando para que África tenha assento permanente na ONU. Concorda?

Não somos nós que reconhecemos esse papel activo de Angola, são os outros países que o fazem. Por exemplo, na Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos, a presidência angolana tem sido bastante elogiada! Na Comissão do Golfo da Guiné, que inclui S. Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Gabão, Camarões, entre outros, a influência de Angola tem contribuído para que tenhamos encontrado, por exemplo, mecanismos para conter a pirataria marítima. O facto de termos sido eleitos para o Conselho de Segurança da ONU quase que por unanimidade… faltou um país que não votou… provavelmente por engano… (risos)!

Bom, esse é um facto que comprova que temos credibilizado o nosso papel na arena internacional. Também a pacificação na República Centro-Africana, na República Democrática do Congo, no Burundi, com a crise recente por altura das eleições. E, contrariamente ao que se dizia, nós nunca saímos da Guiné Bissau. Continuamos lá e estamos a identificar novas áreas de cooperação a todos os níveis com o novo poder instituído no país.

Esta é a segunda vez que Angola é membro não-permanente do Conselho de Segurança e nenhum outro país africano de expressão portuguesa tinha conseguido tal feito... Agora, se amanhã conseguiremos ter assento como membro permanente, isso irá decorrer de vários factores como, por exemplo, da reestruturação do Conselho de Segurança e da própria ONU no seu todo. O mundo mudou e não faz sentido que nos dias de hoje se mantenham apenas aqueles cinco como membros permanentes [Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e China], com todo o peso e força que lhes é atribuído. Urge que se abra a possibilidade que outros países e outras regiões do mundo possam ter assento permanente com os mesmos instrumentos que os outros cinco.

Olhando agora para a região do Algarve: quais são os maiores problemas que os angolanos residentes no Algarve enfrentam?

Diria que o maior problema é o da documentação pessoal. Muitos porque perderam o contacto com familiares e com pessoas amigas, ou não sabem como recorrer ao país para obter documentação original. Acresce que muitas destas pessoas viviam e nasceram em determinadas regiões de Angola que foram afectadas pela guerra e, com ela, todas as infra-estruturas e documentação que havia nos serviços públicos, perderam-se! O executivo de Angola, preocupado com esta situação, que atinge não só os angolanos na diáspora, como também outros angolanos residentes no próprio país, está a implementar um programa que vai no sentido de facilitar que as pessoas acedam a documentação através de um novo registo, mas sob algumas condições, testemunhas por exemplo, que atestem que determinado cidadão é de facto natural de Angola.

No início do seu mandato, há um ano, propôs-se criar novas parcerias com empresas, municípios, Universidade do Algarve… Que ‘feedback’ tem tido?

O ‘feedback’ é positivo. Lançámos a semente mas ainda não materializámos nenhum projecto. Na Universidade do Algarve temos sim estudantes angolanos a fazerem mestrados e pós-graduações mas ainda não conseguimos que as empresas abrissem as suas portas seja para empregar ou, sobretudo, para dar formação. Não por falta de vontade de parte a parte mas pela realidade concreta do meu país. Mas já no próximo ano queremos realizar em Faro uma Conferência sobre as Oportunidades de Negócio em Angola. Já falámos com várias empresas, municípios e associações da região, que acolheram bem a ideia.

Temos uma câmara municipal algarvia que tem um princípio de geminação estabelecido com a Província angolana de Benguela, mas falta concretizar. Também o município de Faro está interessado em encontrar um parceiro em Angola para um acordo de cooperação. Enfim, existem de facto ideias e projectos que, a seu tempo, irão com certeza ser concretizados.

Este Consulado localiza-se na região mais turística de Portugal. Os angolanos procuram-na mais ou continua a ser Lisboa a cidade eleita para o turismo do povo de Angola?

Lisboa é onde há a maior concentração de residentes angolanos e o angolano quando sai de Angola vem ao encontro dos seus familiares, dos seus amigos. Para além de que gosta muito de fazer compras e o grande centro comercial é Lisboa. Para ir à praia o angolano tem Luanda ou outras Províncias do litoral! Mas há pessoas que vêm a Lisboa passar uns dias e no fim-de-semana vêm ao Algarve, ou porque têm familiares ou porque “é o Algarve”. Toda a gente em Angola conhece a região porque o clima é o mais parecido com o nosso. Também há um outro grupo que vem a Portugal por questões de saúde e aí, mais uma vez, vai para Lisboa. E há todos os laços que são indissolúveis...

E do conhecimento que tem, os portugueses, procuram cada vez mais Angola para passar as suas férias?

Já temos à volta de 200 mil portugueses em Angola, o que implica que muita gente vá visitar os seus familiares, então o número de visitantes para esse efeito, também tem aumentado, um pouco à imagem do número de angolanos que visitam os seus familiares em Portugal.

A maior concentração de portugueses é em Luanda mas encontramos portugueses por todo o país. Vamos ao Huambo e vemos o comércio a retalho dominado por portugueses. Em Benguela a mesma coisa. Na Huíla, a restauração também tem uma presença portuguesa bastante acentuada. Estive há bem pouco tempo no Huambo e em quase todos os restaurantes que frequentei pelo menos a gerência é portuguesa.

Do que se lembra da chegada a Luanda, quando responde à chamada do presidente Agostinho Neto, aquando da Proclamação da Independência?

Sem concluir estudo algum respondi ao chamado e voltei ao meu país. Era a euforia. No dia 11 de Novembro eu estava lá com um grupo de amigos e familiares! São coisas que não vão apagar-se da nossa memória. Eu já tinha actividade política e tinha consciência do que estava a acontecer naquele dia e portanto, só por esta razão - por termos essa consciência e por termos assistido - foi inesquecível… Ouvindo os tiros lá longe, a partir de Kifangonso, a cerca de 30 quilómetros de onde estávamos… Vão ficar para todo o sempre.

Lembro-me do 1º de Maio, de assistir ao içar da primeira bandeira de Angola a ouvir a Proclamação da Independência. A partir do 11 de Novembro, somos nós. A partir desse dia o país é nosso. Nós é que sabemos o que queremos do nosso país.

Depois vieram os problemas, a guerra civil, que só terminou em 2002. Costumo dizer que quando se assinou a paz foi a nova independência porque só a partir daí é que foi possível fazer aquilo que se está a fazer pelo país porque, até então, era sarar as feridas. As feridas físicas das pessoas, as “feridas” das infra-estruturas, as “feridas” do coração das pessoas, pelas famílias desfeitas de ambos os lados.

Quarenta anos passados há uma certeza que nós temos: valeu a pena a Independência assim como valeu a pena termos alcançado a paz. Tudo isso porque está a valer a pena vermos o país que estamos a construir. Há dificuldades? Muitas. Há erros que estão a ser cometidos? Há! Por quê? Porque se está a trabalhar, porque se não se estivesse a criar condições para que as gerações vindouras possam encontrar um país diferente, não haveria erros.

Acha que as gerações mais jovens têm essa noção?

Hoje temos que fazer face a uma “rebeldia” com que a nova juventude por vezes se apresenta. É normal! Vemos os jovens assumindo posições nas redes sociais que não se coadunam com a forma de ser e de estar do povo angolano. É necessário que percebam que há valores que devem ser preservados, que não podem ser pisoteados ou esquecidos, como os valores da Independência, os valores culturais, o respeito pelo mais velho, pela família, pelo bem público.

É necessário que esta juventude não perca de vista o passado que nos trouxe até este presente e que perspectiva o futuro. Mas continua a ser uma juventude muito activa, com muita entrega e a direcção política do nosso país regozija-se com isso, com a entrega que a Juventude está a ter.

A Conferência Nacional sobre “A Juventude e os 40 anos de Independência Nacional”, organizada pela Juventude do partido no poder, mas que integra jovens de outras formações políticas, é prova desse dinamismo. A juventude tem de ser a força motriz do desenvolvimento do país. São eles que estão a estudar e a ganhar valores técnicos, intelectuais, para tornar o país melhor.

Felizmente temos estudantes em quase todo o mundo: nos países do Ocidente, nos antigos países de Leste, nos Estados Unidos, na China, em Israel, nos mais variados países africanos, como no Sudão, no Egipto, na Argélia… Portanto podemos dizer que temos estudantes angolanos em todas as Academias do saber do mundo. Então se estão lá a preparar-se para gerir o país, não se podem esquecer das nossas origens para que possam adaptar essas competências às nossas realidades ancestrais.

A chama continua acesa?

Esta chama está acesa. Foi a juventude que lutou pela independência, como Agostinho Neto, Eduardo dos Santos e outros. José Eduardo dos Santos fugiu de Luanda com 17 anos para juntar-se aos libertadores em 1961. Por isso esta juventude tem de beber dessas experiências.

Vamos apanhando uma bolsa ou outra daqueles que estão mais descontentes, daqueles que têm mais “sangue na guelra”, como se costuma dizer mas, mesmo esses, têm como principal bandeira o gostarem do país e querer ver o país andar: o patriotismo e é isso que nós queremos.

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